exposição

retratos de rezadeiras do Sertão

por Karen Lima

Caminhos para capturar sensações, rezas e saberes

Esta exposição surge do desejo de guardar o que não se deve perder. De percorrer caminhos de terra, sentar na sala ou no terreiro, escutar histórias de fé. Nasce do encontro com cinco benzedeiras do sertão que carregam, em si, saberes antigos: Mãe Joana, na Comunidade Conceição das Crioulas, em Salgueiro; Rita Pankará e Dona Terezinha, em Orocó; Dona Teinha, em Floresta; e Mãe Neide, em Petrolina.

Observei de perto seus gestos e palavras, as formas de afastar os pesares: quebranto, sol da cabeça, espinhela caída. Vi criança, adulto e idosa sendo benzidos. O corpo que se curva, a mão que mede o pano, o sopro que acompanha a palavra dita baixo. A boca que se move no compasso de quem sabe que cada sílaba tem um destino. A água derramada que desenha marcas no chão; ervas roçam a pele, espalhando o cheiro verde no ar; a névoa da fumaça sagrada do cachimbo que envolve o ambiente. Uma mão firme conduz o corpo ao lugar certo, enquanto o murmúrio da reza repete ensinamentos antigos. Movimentos exatos, repetidos por décadas, cumprem o propósito de desalojar o sofrimento.

Ao ver as folhas vivas murcharem, lembrei das benzedeiras da minha infância, no povoado de Tenebre (PE), nos sítios do interior de Pedra (PE), minha raiz familiar. Era quando meus olhos curiosos buscavam decifrar como elas levavam embora o que eu não sabia nomear. Atenta às palavras que escapavam, buscando qual delas carregava a força capaz de desfazer o mal. Lembrei do banzo indo embora. Da tristeza se aquietando. Do respeito pelos encantos. Essa lembrança, tão viva, guiou meus passos até aqui.

Para capturar sensações, representações e a essência de cada benzedeira, as fotografias transitam entre o documental e o poético. A luz entra pelas janelas, molda contornos, revela gestos, toca o sagrado. Entre ângulos, sombras e benzimentos, tento preservar uma tradição que ainda pulsa nos corações sertanejos. Essas imagens convidam a atravessar um tempo suspenso, onde a fé se manifesta em gestos simples e ancestrais, partilhados de geração em geração. Guardá-las é preservar uma forma de perceber o mundo que se entrelaça à natureza, ao corpo e à memória. Benza nasce desse impulso: é uma prece minha, feita de lembrança, respeito e entrega, que busca evocar recordações e despertar a curiosidade diante dos mistérios.

Karen Lima
Ago, 2025.